Mudanças climáticas: o que são, quais são seus impactos e por que precisamos falar de adaptação?
24/09/26
24/09/26
Ondas de calor mais intensas, períodos de seca prolongados, chuvas extremas, enchentes e incêndios florestais são alguns dos fenômenos que têm ganhado espaço no debate sobre mudanças climáticas. Mas, afinal, o que está por trás desses comportamentos da natureza e como isso afeta a vida das pessoas?
As mudanças climáticas não dizem respeito apenas ao aumento da temperatura média do planeta. Elas envolvem alterações de longo prazo nos padrões climáticos, precipitação, circulação atmosférica e em outros componentes do sistema climático, com impactos sobre os ecossistemas, a disponibilidade de água, a produção de alimentos, a saúde, as cidades e a economia.
O clima da Terra sempre passou por variações naturais. A diferença é que, nas últimas décadas, a velocidade e a intensidade do aquecimento observado estão diretamente relacionadas ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa, provocado principalmente pelas atividades humanas.
A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e a conversão de áreas naturais para atividades agropecuárias, assim como práticas produtivas intensivas em energia e recursos, contribuem para o aumento da concentração de gases como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O) na atmosfera.
Esses gases retêm parte do calor que chega à Terra e contribuem para o chamado efeito estufa. Esse fenômeno é fundamental para a existência de vida no planeta. O problema está na intensificação desse efeito em decorrência da atividade humana, que tem provocado, por consequência, um aumento da temperatura média global.
Os efeitos já podem ser observados. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) aponta que 2015 a 2025 foram os 11 anos mais quentes já registrados. Em 2025, a temperatura média global ficou cerca de 1,43 °C acima da média de 1850–1900, segundo o relatório State of the Global Climate 2025.
Isso não significa que todos os lugares do planeta estejam ficando mais quentes da mesma maneira ou que todos os eventos extremos sejam causados exclusivamente pelas mudanças climáticas. O que a ciência demonstra é que o aquecimento global está alterando as condições do clima e aumentando a frequência e a intensidade de determinados extremos em diferentes regiões.
Os impactos das mudanças climáticas afetam diferentes dimensões da vida em sociedade, podendo se desdobrar em consequências econômicas e sociais que permanecem por muito tempo.
A água é um dos recursos mais diretamente afetados pelas mudanças climáticas. Alterações no regime de chuvas, secas mais prolongadas, aumento da evaporação e mudanças nos ciclos de rios e reservatórios podem comprometer tanto a disponibilidade quanto a qualidade desse líquido vital.
Um relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) chama atenção para uma situação ainda mais grave: o mundo já teria entrado em uma era de “falência hídrica”. O termo é utilizado para descrever situações em que sistemas hídricos passam a ser utilizados além de sua capacidade de recuperação. De acordo com o estudo, cerca de 70% dos principais aquíferos do mundo apresentam declínio de longo prazo, enquanto aproximadamente 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez de água severa por pelo menos um mês ao ano.
A relação com o clima é direta, mas não exclusiva. O relatório destaca que o aquecimento global se soma a fatores como uso excessivo da água, degradação do solo, desmatamento, poluição e alocação excessiva desse recurso. Isso significa que enfrentar a insegurança hídrica não depende apenas de esperar que as condições climáticas melhorem. É necessário repensar a forma como a água é utilizada, gerenciada e protegida.
O relatório da UNU-INWEH destaca que aproximadamente 70% das retiradas globais de água doce são destinadas à agricultura. Ao mesmo tempo, cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão concentradas em áreas onde o armazenamento total de água apresenta declínio ou instabilidade. Assim, a discussão climática também é uma sobre segurança alimentar, renda, emprego e acesso a recursos básicos.
Ondas de calor podem aumentar os riscos relacionados à exposição a temperaturas extremas. Enchentes podem comprometer sistemas de saneamento e aumentar a exposição a água contaminada. Mudanças nas condições ambientais também podem favorecer a expansão ou alteração da distribuição de determinados vetores e doenças. Esses impactos tendem a ser maiores entre populações que já enfrentam situações de vulnerabilidade.
Nas cidades, os efeitos podem aparecer de diferentes maneiras: alagamentos, deslizamentos, interrupções no transporte, danos a moradias, pressão sobre sistemas de saúde e saneamento e aumento da exposição ao calor. Os impactos não são distribuídos igualmente.
Pessoas que vivem em áreas de maior risco, com menor acesso a infraestrutura, serviços públicos e recursos financeiros, tendem a ter menos condições de se proteger e se recuperar depois de um evento extremo. Por isso, falar de mudanças climáticas também significa falar de desigualdade e justiça social.
O cenário brasileiro ajuda a visualizar como esses impactos se manifestam nos territórios. De acordo com o relatório elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), mais de 336 mil pessoas foram diretamente afetadas por desastres climáticos no país em 2025, enquanto os danos materiais registrados chegaram a aproximadamente R$ 2,9 bilhões. O ano de 2025 foi marcado por chuvas intensas, inundações, secas, ondas de calor, ciclones e tornados.
A Região Norte concentrou mais de 202 mil pessoas diretamente afetadas por eventos hidrometeorológicos. O relatório também registra episódios extremos em diferentes estados, como as inundações provocadas pela elevação do rio Acre e os impactos das cheias no Amazonas. O Brasil também registrou sete ondas de calor em 2025, concentradas principalmente no verão, no início da primavera e no final de dezembro.
Esses números ajudam a mostrar que a mudança do clima não é um problema distante ou exclusivamente ambiental. Seus efeitos chegam às cidades, às comunidades, à infraestrutura, à economia e à vida cotidiana.
Diante desse cenário, existem duas grandes frentes de ação climática: mitigação e adaptação.
A mitigação busca enfrentar as causas do aquecimento global, principalmente por meio da redução das emissões de gases de efeito estufa e do aumento da remoção desses gases da atmosfera. Isso envolve, por exemplo, ampliar o uso de fontes de energia de menor emissão, melhorar a eficiência energética, proteger e restaurar ecossistemas, transformar sistemas de transporte e produção e repensar padrões de consumo.
Já a adaptação está relacionada à preparação para os impactos que já estão acontecendo ou que são esperados. É o processo de ajustar sistemas, estruturas e práticas para reduzir riscos e vulnerabilidades diante das mudanças climáticas.
Na prática, isso pode significar desenvolver sistemas de alerta, melhorar a infraestrutura urbana, proteger áreas sujeitas a inundações, adaptar sistemas agrícolas, ampliar a segurança hídrica, fortalecer serviços públicos e incorporar riscos climáticos ao planejamento de cidades, empresas e territórios.
As duas estratégias são complementares. Reduzir as emissões é indispensável para limitar o aquecimento futuro, enquanto a adaptação é necessária para lidar com impactos que já fazem parte da realidade.
Os impactos climáticos não geram apenas perdas ambientais e sociais. Eles também têm consequências econômicas importantes.
Em relatório desenvolvido pela Morphosis Solutions em parceria com o FGVces, Instituto Itaúsa, Paulson Institute e Basilinna, aponta que incêndios florestais, tempestades, inundações e secas provocaram mais de US$ 300 bilhões em perdas econômicas globais em 2024. O estudo alerta que, sem uma resposta ambiciosa de adaptação, os prejuízos associados aos impactos climáticos podem chegar a 20% do PIB global até 2050 e 50% até 2070.
O material propõe pensar em uma “economia da adaptação”, estruturada a partir de diferentes dimensões, como resiliência econômica, inovação, infraestrutura, governança, capacidade do mercado financeiro e coesão social.
Enfrentar as mudanças climáticas exige ações em diferentes escalas.
Governos têm papel central na criação de políticas públicas, planejamento territorial, infraestrutura, sistemas de monitoramento e alerta e mecanismos de proteção social.
Empresas podem incorporar riscos climáticos às suas decisões, reduzir emissões, aumentar a eficiência no uso de recursos e investir em soluções mais resilientes, enquanto organizações da sociedade civil e instituições que atuam diretamente nos territórios também podem contribuir para fortalecer comunidades, ampliar conhecimentos e conectar diferentes atores.
Já a sociedade, de forma mais ampla, pode participar desse processo por meio de escolhas de consumo, mobilização, educação ambiental e participação nas decisões que afetam seus territórios.
Não existe uma única solução para a crise climática. O enfrentamento depende da combinação entre ciência, políticas públicas, inovação, educação, participação social e ação coletiva. A crise climática é global. Mas a construção de um futuro mais resiliente começa nos territórios, nas relações e nas escolhas que fazemos hoje.
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